
Guardo aqui umas boas canções que sempre vão lembrar você, umas memórias que começam a se embaralhar se perder ou morrer, uma saudade que parou de caber faz tempo e o desejo de que um dia, aiumdia, eu consiga voltar e você consiga me receber de verdade.
“Quando a vi pela primeira vez”, começaria te dizendo, porque me parece certo organizar tudo isso dessa maneira cronológica, não, não exatamente certo, mas quem sabe assim eu consiga dar alguma lógica, quem sabe assim eu consiga achar onde foi, em que momento foi, mas como eu ia dizendo, quando a vi pela primeira vez, trazia uma pequena mala e esperava sozinha. Não sei exatamente o que me chamou a atenção, mas posso supor algumas coisas: a mala era pequena demais para alguém que está indo embora, os olhos eram vazios demais para alguém que carrega qualquer sentimento ou o mundo nos ombros, as roupas eram descuidadas, o cabelo parecia estrategicamente desarrumado e ela os soltava e passava a mão neles e os enrolava nos dedos para depois puxá-los ao alto em um rabo de cavalo que deixava fiozinhos soltos na nuca e ela parecia não saber que aquilo era enlouquecedor, aquilo deixaria qualquer cara maluco, aqueles fiozinhos soltos na nuca. Ela percebeu que eu olhava, mas achei que seria ridículo qualquer gesto de cavalheirismo, carregar sua mala, oferecer um café, um cigarro, o isqueiro, ela me acharia ridículo, tive certeza de que era do tipo que não suporta essas coisas que nós homens chamamos gentileza e a imaginei em bares escuros sujos nos cantos se irritando quando perguntassem se estava sozinha, se vinha sempre ali, se aceitava uma cerveja, um abraço, uma dúzia de palavras. Ela me olhou rapidamente e então buscou algo dentro da bolsa, tirou um livro e um Camel. Sempre tive uma queda por mulheres que não gostam de filtros brancos, pensei. É das que esperam sozinhas, mas não dizem por quê, só ficam esperando que algo aconteça e as tire do tédio. E então eu aconteci.
Pelos meses que seguiram, fui a descobrindo. Acertei em boa parte das suposições daquela primeira vez, e às vezes me perguntava se ela era assim tão transparente e sentia um ciúme absurdo ao pensar que talvez todos pudessem enxergar aquilo que vi logo de cara, e ela então me acalmava dizendo que não, claro que não, e me dizia você se lembra daquele livro que eu tirei da bolsa, era Caio, é sempre Caio, e ele sabe das coisas e agora não te parece ser verdade aquela coisa de que num deserto de almas também desertas, uma especial reconhece a outra de imediato?, e então eu me acalmava por alguns instantes. Porque ela sempre dava um jeito de me tirar do sério, perdia a razão, quebrava copos e dava socos na parede e então ela ria e dizia que eu era ridículo mesmo, deixa de bobagem, coloca aquele disco, deita aqui de uma vez. Ela me tirava do sério por não perceber que eu era tão pouco, que achava bobagem essa história de almas desertas porque eu era uma, que talvez ela só fosse bonita e sozinha demais na época e eu aconteci, foi só uma questão de ordem de chegada, como é tudo nessa vida.
Domingo acordei e havia aquele cheiro de domingo que já nos era tão familiar. Café, torradas, um cigarro, bom dia dormiu bem. Ela estava acordada há algumas horas já e disse que ficou me assistindo dormir – como fazem os apaixonados, e por isso não acreditei, ela me dizia coisas bonitas, eu sei, dizia que nada assim lhe havia acontecido na vida, mas eu soube, sempre, que não era eu. Me beijou com calma e me trouxe uma xícara na cama, ligou a música e então anunciou: hoje você vai embora, te peço que recolha tudo que é seu e vá embora, leve o que foi nosso também, sabe como sou apegada a objetos e quero nada que me lembre você. E então me arrastei e supliquei, cara, eu me humilhei por essa mulher, quis saber pelo amor de deus o que foi que eu fiz, pedi para ficar, como é que eu conseguiria ir embora?, e foi então que entendi como se sentem os rejeitados, os restos, os que perdem, soube ali o que era tudo aquilo que me diziam sobre perda, que não é simplesmente a falta da pessoa, mas a falta de ser alguma coisa para alguém, e é isso que dói, não é distância saudade ou dor de cotovelo, é saber que acabou o amor de lá, sentir que não há mais nada que nos prenda nesse mundo, nada para ser responsável.
E então chegamos aqui, o momento da história em que te digo, com penar, “a última vez que a vi”. Ela me parecia bem – supus, mas confiei por causa das outras todas suposições corretas –, me pareceu um pouco mais gordinha, provavelmente voltou a beber, a ir para suas festas, a dançar com olhos fechados, provavelmente voltou a confiar a vida a desconhecidos, a apostar nos amores corriqueiros, talvez tenha conhecido alguém que a tenha amado muito mais (e melhor) que eu, porque trazia alguma alegria nos olhos que passeavam pelas vitrines, mas calma, a conhecendo assim como o fiz, talvez fosse só euforia. Ah, como ela era eufórica, tudo tinha de ser grande imenso enorme e ela vibrava com qualquer bobagem, me parabenizava por quebrar ovos sem partir a gema, coisas assim, sabe. Então pensei que fosse só euforia, que talvez ela sentisse minha falta, que quando lhe tocavam a nuca e os fiozinhos soltos ela pensava que era eu quem os havia descoberto todo encantamento, era isso, ela sentia minha falta e disfarçava tudo isso em sorrisos amarelos e olhos borrados de preto ainda do final de semana. Ela não me engana, cara, ela é toda transparente, ela me mandou embora porque precisa de mim. Mas precisa se sabotar, porque é, como vi da primeira vez, ela é das que gostam de esperar sozinha e então eu a tirei do tédio e ela não suportou isso de ser feliz. Você acha que eu faço algum sentido?, tudo bem, nem sei pra quê insisto em contar, em explicar, acho que só preciso falar para ver se encontro mesmo o momento em que perdi para quem sabe voltar atrás me desculpar e dizer para que não tenha medo, eu posso, quem sabe, controlar isso tudo que explode aqui dentro e aí ela não se assustaria mais. Me iludindo? É, pode ser. Mas da última vez que a vi, tive certeza. Não vá me achar meio bicha agora por isso, mas vou te citar Caio, algo que ela me disse um dia e isso me persegue até hoje: existe um cheiro entre o pescoço e o ombro e esse cheiro é diferente em cada um de nós. Ela cheirava a primavera e essa é a estação mais bonita do ano. Eu tive certeza da última vez que a vi, é ela, vai ser ela, tem de ser ela. E ela sabe que sou eu, porque eu aconteci e não, eu não vou deixar ela fugir.

nomotético
adj.
adj.
1. Da legislação.
2. Relativo ao processo de fazer leis.
de tudo aquilo que recorre, que continua, que não para nunca, por exemplo, saber que gosto de comida italiana, carinho no meio das costas, beijos com gosto do amanhecer, cerveja gelada, doces azedos, oito ou oitenta, vozes doces ou rasgadas. conhecer cada sinal, a pinta atrás da orelha, as quatro sardas, a sobrancelha levemente arqueada e sempre despenteada, as marcas da puberdade, o cílio que sempre entra no olho. ali, sempre, estrutura, superestrutura, entidades repressoras, conscientes coletivos.
ruptura
s. f.
1. !Ato ou efeito de romper.
2. Rompimento; corte; interrupção.
3. Quebra de relações sociais
frivolidades. corações partidos, amores não realizados, promessas, felicidade ou só o fim da tristeza, ou da solidão, mas ah, bem melhor seria poder viver em paz, ruptura, paz, que é isso. as histórias baseadas nas memórias, pessoais, seletivas, apagadas, esquecidas. a implosão do edifício hegeliano, não mais a parte como todo, ser o todo e talvez aqui esteja me confundindo, mas ser parte sempre fez mais sentido ou talvez só nunca tenha sido toda, então rompe. e se é isso que me atrai, as frivolidades que quebram o gostar de sorvete de maracujá, se foi sempre isso, o extra, o fora, a ruptura, essa sim palavra bonita, faço o que?
o tempo de amor
é o tempo de dor
o tempo de paz
não faz nem desfaz
levava as mãos no bolso, a cabeça erguida.
não olhava para trás,
porque olhar para trás era uma maneira de ficar num pedaço qualquer
para partir incompleto, ficado em meio para trás.
não olhava, pois, e, pois não ficava.
completo, partiu.
você se foi e antes me desejou coisas bonitas como tardes leves e boas companhias, te disse que não me importavam mais o passar dos dias se no final não poderia voltar para nossa casa e te contar como haviam sido injustos, ou como me elogiaram, ou como chorei vendo o simples esforço de um pássaro que perdeu uma das pernas, não me fariam mais diferenças essas coisinhas que antigamente – num tempo que hoje já nem consigo me lembrar, olha só, não consigo pensar no que eu fazia, do que gostava, de como eu era, ou se eu era alguma coisa antes de você, tem hora que penso que todo o antes aconteceu por bobagem, porque precisava só acontecer, até o dia que –, mas essas coisinhas de antigamente que antes pareciam me encher de algo que parecesse esperança, hoje elas nem tentam, talvez tenham percebido que já não tenho olhos para elas, que já não tenho saco, que se dane qualquer esperança, porque no final do dia não há você, não há nossa casa, nosso banho, nosso lençol, nossa sede.
hoje amanheceu cinza, é até falta de vergonha na cara dizer isso, a-ma-nhe-ceu, acordei depois do meio dia, a cabeça girava girava girava, havia um peso tão grande no corpo que mentalmente eu dizia ‘mexa-se’ e nada acontecia. amanheceu cinza e me lembrei de que todas as manhãs abria timidamente a cortina para ver o que nos esperava, e sempre deixava tudo pra lá quando os dias eram cinzas e fazia tanto sentido, era certo ficar ali por horas te acariciando a nuca e te dando pequenos beijos estalados e rindo do barulho que eles faziam. E quando havia sol, talvez nos obrigássemos a algo como levantar da cama e escancarar as janelas, talvez sair para sentar num gramado, porque é isso que esperam de quem se sente feliz.
amanheceu cinza e me lembrei de tudo que fiz ontem, das besteiras que disse, dos olhares que lancei cheio de segundas intenções para estranhos, dos que me tocaram e me beijaram com tanta pressa de ir embora – foram quatro – e que talvez você também tivesse essa pressa, mas me fiz calma mesmo quando o coração gritava e aceitei e sabe deus por que, você ficou. mas havia sempre, e eu sentia, a vontade de ir embora, de se ver livre e eu nunca quis ser livre, nunca, não ensaio essas coisas tipo voar ver procurar, vivo constantemente da pré-estréia, do ensaio-geral, do frio na barriga antes da primeira cena, nunca esperando o fim da temporada. mas ele vem e ele sempre vem, como naquele trecho que te citei no último dia que te vi, as armas abaixadas, todas elas, e finalmente o grande golpe. e como queria te dizer tudo que me marcou algum dia, te falar de Kundera, de Caio, de Bukowski, de Clarice, de Regina, Fiona, Elliot, te mostrar tudo que me fez assim, que te chamou a atenção, te contar que a vida, ah a vida, ela me foi ingrata tantas vezes, ela me tirou tanto, ela me traiu, ela levou embora pedacinho por pedacinho do que eu me julgava ser, e hoje me sinto só como nunca, e não me importam esses estranhos, e nalgumas horas chego a ser tão mal agradecida que penso nem importar mais os conhecidos e sinto vontade de dizer a todos eles que me deixem, me esqueçam, não se importem, por favor. e que estranhamente me pego pensando que queria que você se importasse com esses desconhecidos, que você viesse e pedisse para ficar de novo, ou nem pedisse, nunca pediu, apenas ficasse nisso que agora chamo de nosso: casa, quarto, cozinha, sala, sofá.
a gata vai bem. por três dias me recebeu triste, como se houvesse decepção quando eu entrava sozinha pela porta, já sabia que não haveria brincaderias, mordidinhas na mão, "você é a mais bonita". hoje ela apenas corre pro meu colo quando me vê chorar e vai aos pouquinhos aproximando o rosto do meu, se falasse talvez dissesse algo como pare com isso, deixe de ser idiota, ou quem sabe eu te entendo, chore, pode chorar, eu estou aqui, eu vou estar aqui, eu não vou embora, pelo menos não até meus rins pararem de funcionar ou eu pular daquela janela num dos passeios que dou pelo mundo (e veja bem, o mundo lá fora pra mim não passa dessa vista da janela) que sempre te assustou.
pensei em me mudar, pensei talvez em aprender a tocar algum instrumento musical, mudar a cor do cabelo, renovar todo o guarda-roupa e jogar fora as roupas monocromáticas que você me ensinou a gostar, pensei em gritar de tanta tristeza, em me deixar derrubar de uma vez e parar de ficar resistindo por medo de não me levantar nunca mais, pensei em te ligar e dizer que sinto muito e sinto falta, me senti idiota, me senti maluca, me senti tantas coisas nesses últimos dias e pensei meu deus, e você nem se importa, e você nem quer saber tudo isso, não quer saber de Kundera, não quer saber de Fiona, não quer saber o que senti quando amanheceu cinza, você não se importa com os estranhos, você não quer saber de mim, você nunca soube de mim.